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O cantinho do castigo educa?

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Nós pais estamos sempre buscando o melhor caminho para educar e cuidar dos nossos filhos, queremos acertar o tempo todo. Mas já deu para perceber que não é fácil atingir essa meta, porque não existe receita mágica, uma fórmula pronta a ser seguida, especialmente no que diz respeito à educação. Ainda assim, seguimos buscando métodos e maneiras para ser infalíveis educadores e garantir que nossos filhos se tornem crianças admiráveis embora, algumas vezes, o tamanho da birra, pirraça ou malcriação nos deixe completamente perdidos.

A coisa parece se complicar quando a criança começa a apresentar um comportamento de contestação, cheio de vontades próprias, desobediência e inconformismo. Ele se acentua por volta dos 2 anos de idade, quando elas entram na fase da adolescência infantil, ou terrible two, como é denominado na língua inglesa.

Lidar com uma criança nessa fase exige paciência, sabedoria e muito equilíbrio emocional dos pais. É preciso compreender que, por se tratar de uma fase normal do desenvolvimento infantil, o comportamento é plenamente natural e aceitável, mas nem por isso pode deixar de ser repreendido.

A postura limitadora dos pais nessa fase é fundamental para que a criança aprenda a lidar com suas emoções, compreenda os limites de uma convivência saudável em sociedade e leve consigo esse aprendizado para toda a vida.

O cantinho do castigo

Em tempos de Supernanny, o cantinho do castigo nos parece uma opção infalível. O método promete resolver a questão do mal comportamento com a lógica de que a criança recebe uma punição temporária, sendo deixada em um local sozinha para pensar sobre o que fez de errado. Nesse tempo ela se acalma, reflete sobre seu comportamento e, quase sempre, pede desculpas. Assim, tudo está resolvido.

Acontece que, segundo os especialista em educação infantil, o único efeito prático dessa medida é oferecer uns minutinho de descanso para os pais, mas não há qualquer função educativa, já que não impede que a criança repita o erro.

Uma busca rápida no dicionário nos revela o exato significado das palavras castigo e pensar.

Castigo –  pena ou punição que se inflige a pessoa ou animal.

Pensar – submeter ao processo de raciocínio lógico; ter atividade psíquica consciente e organizada; exercer a capacidade de julgamento, dedução ou concepção; refletir sobre, ponderar, pesar.

Depois de conhecer o real significado dessas palavras, você acha mesmo que elas apresentam alguma relação possível de ser compreendida por uma criança pequena? Enquanto “castigo” indica uma repreensão, uma punição, algo ruim, “pensar” se refere a uma atitude reveladora, madura e enriquecedora. Se queremos estimular o pensamento em nossas crianças, não podemos associá-lo a algo ruim. Com essa conduta, iremos conseguir apenas que a criança entenda que pensar não é nada bom.

Além do mais, quando deixamos uma criança sozinha em um local da casa, o que vamos conseguir é gerar ainda mais sentimento de ansiedade, raiva e abandono. Quando a conduta correta seria conversar, explicando-lhe as razões do seu comportamento, fazendo-a compreender e nomear suas emoções. Esse é o papel dos pais até os 6 ou 7 anos de idade.

Na verdade, a ineficácia da medida tem mais a ver com o grau de compreensão da criança. A ciência já revelou que crianças pequenas ainda não têm a capacidade de refletir sobre o que fizeram. Elas só desenvolvem esse nível de compreensão a partir dos 6 ou 7 anos de idade. Até esse momento, a criança não consegue compreender o sentido das regras morais e dos valores com profundidade.

Portanto, sentadas isoladas de todos, elas apenas irão pensar na cor da parede, em arrancar a casquinha do machucado no joelho, roer as unhas ou criar algum mecanismo para conseguir sair do cantinho. Os mais comuns são chorar (mas muito e bem alto, aos berros mesmo!), pedir para sair, perguntar insistentemente se o tempo já passou. As mais desafiadoras irão sair do local  – não importa quantas vezes você a coloque de volta – e as mais expertas adotarão uma tática infalível, o pedido de desculpas quase que imediato. Nesse momento, os pais se derretem e acreditam verdadeiramente que seu filho refletiu e compreendeu o que fez de errado. Só que não, meus amigos.

Educando com a conversa

Mas se o cantinho do castigo não funciona, você deve estar se perguntando, como pode estabelecer limites para seu filho de forma educativa e não violenta. Realmente, não é tarefa fácil, mas possível por meio da conversa. A palavra, quando usada de maneira adequada, tem o poder de condicionar o comportamento da criança.

Para que isso aconteça, os pais precisam entender o que se passa na mente dos seus filhos, compreendendo suas ansiedades, interesses e insatisfações. Inicialmente, devem aceitar uma realidade. Até os 4 ou 5 anos de idade, a criança é naturalmente oposicionista, contestadora, acredita que é o centro das atenções e que todos estão ali para servi-la. A partir dos 3 anos, já tem capacidade de compreender que desagradou os pais, mas ainda não consegue refletir sozinha sobre o erro cometido. Em que pese essa limitação, podemos ajudá-la a alcançar esse entendimento por meio da conversa. Para tal, devemos nos valer da explicação, de exemplos e de algumas estratégias linguísticas.

Nomear emoções

Nessa etapa do desenvolvimento infantil, a criança não tem tanto equilíbrio emocional, não consegue se reorganizar emocionalmente com facilidade, tudo é motivo para uma reação explosiva. É aí que entra o equilíbrio dos pais para, de acordo com os psicólogos, nomear as emoções como uma estratégia importante de educação. Isso se faz explicando à criança o por quê da sua reação.

Portanto, sempre que a criança tiver uma reação exagerada de choro, esperneio ou agressividade, se coloque a sua altura, olhe nos seus olhos, abrace-a, tente acalma-la e, em seguida, lhe diga o por quê da reação desproporcional.

Você pode se valer de frases como estas: “você está assim porque está cansado, com sono, fome ou calor, porque o brinquedo quebrou, porque não o deixei fazer o que queria…”. Seja lá qual for o motivo que esteja potencializando a reação da criança (sempre há e é preciso compreender isso para que a estratégia funcione), ele deve ser explicado. Assim, você demostre à criança que compreende seus motivos, que você está ali para acolhe-lo, mas deixe claro que aquela reação não é adequada e que você não a aprova.

Exemplos e comparações

O exemplo é outra estratégia linguística importante no caminho da educação infantil. Ele é um grande aliado, especialmente nos momentos em que o controle parece ter desaparecido por completo, quando, inesperadamente a criança bate nos pais, por exemplo. Esse é o extremo do mal comportamento e nos deixa arrasados. Nesse momento, não podemos ceder à vontade de retribuir a agressão e sim mostrar o próprio exemplo de comportamento.

Nessa hora, segure os braços da criança, olhe-a nos olhos, posicione-se com uma voz de autoridade (mas não grite) e pergunte: “porque você fez isso? A mamãe já bateu em você alguma vez?”. Se a criança se mantiver calada, insista para que ela responda. Mas, se perceber que a situação está gerando ainda mais descontrole, você mesma pode responder um categórico “NÃO” e continuar dizendo: “A Mamãe não bate em você, então não faça isso com a mamãe! “estou muito triste com você e não quero que isso se repita”.

Nas poucas vezes em que Marina perdeu o controle dessa forma, tive muito sucesso com essa estratégia, porque ela logo percebeu que errou feio e me pediu desculpas voluntariamente. Acho que aprendeu a lição, já que, felizmente, não tem repetido o comportamento.

Em outras situações, você também pode se valer de comparações com outras crianças. Funciona da seguinte maneira. Toda vez que a criança insistir em conduta inapropriada, você pode dizer que o seu comportamento não é legal, que outras crianças não o repetem, inclusive “fulano”. Aí, você se vale do nome de algum coleguinha de quem seu filho gosta muito. Sabe quele amigo preferido?

Aqui em casa, essa estratégia tem tido bons resultados, especialmente na hora de dormir, quando a Marina insiste em lutar contra o sono, eu logo digo: “todas as crianças já foram dormir, inclusive a coleguinha tal, e se você não fizer o mesmo, só você chegará atrasada na escola amanhã”. Esse método, busca estabelecer um padrão de comportamento, tido como adequado para a ocasião, já que as crianças se espelham umas nas outras.

Causa e consequência

Ainda sob a ótica da educação pela estratégia das palavras, pode-se adotar o método da causa e consequência. Ele funciona bem com crianças maiores, a partir dos 3 anos (mas já consigo adotar com Marina em algumas situações) e consiste em estabelecer uma regra de consequência a partir de condutas inadequadas. Por exemplo: riscou a parede, tem  que limpar; deixou todos os brinquedos espalhados pela casa tem que guardar; desarrumou, organiza…

Aos poucos, cada família vai estabelecendo suas próprias regras de causa e consequência, de forma que a criança passa a conhecer quais condutas são reprovadas pelos pais e as consequências que delas irão surgir.

Dar um gelo

Uma medida um pouco mais enérgica é dar um gelo na criança. Isso mesmo, deixa-la de lado por um tempinho (bem pequeno, ok!) para que perceba que seus pais ficaram realmente tristes com sua conduta. Às vezes, um semblante de decepção e o afastamento são suficientes para que a criança entenda que errou. Dizer que a mamãe ou o papai ficou triste e não quer brincar ou conversar por um tempo toca muito mais do que um sermão prolongado ou alguns minutinhos no  quarto. Nenhuma criança é insensível a essa medida.

Mas não permita que esse afastamento faça a criança acreditar que isso afetou o que você sente por ela. É preciso deixar claro que seu amor de mãe ou pai é incondicional. Sempre que dou esse gelinho em Marina e logo em seguida ele pede desculpas eu falo: “a mamãe desculpa, filha, porque eu amo você, mas não faça mais isso, tá bom?”.

É muito importante deixar claro que não gostou da conduta errada, que ficou decepcionada com o comportamento, mas que seu amor pela criança está acima de tudo.

Mudança de foco

A palavra também pode ser usada de forma equivocada quando se faz seu uso exagerado. Nessa fase, é muito comum os pais adotarem exageradamente o uso do “NÃO”. “Não pode pegar nisso”; “não suba ai”; “não corra”; “não pule no sofá”… A palavra é usada tantas vezes que acaba perdendo seu sentido de autoridade e os momentos com a criança se tornam cansativos e desgastantes. Eu mesma percebi isso no meu comportamento e resolvi adotar o mecanismo da mudança de foco. Eu explico.

Toda vez que ela insiste em querer ou fazer algo que não é seguro ou adequado, em vez de simplesmente dizer “NÃO”, ou até tentar conversar para explicar que aquilo é perigoso, sujo, errado etc (às vezes, a explicação não é suficiente), eu direciono a atenção dela para outra coisa.

Ontem mesmo, já na hora do banho noturno, antes de botá-la na cama, ela cismou que queria desenhar com o giz de cera e foi subindo as escadas chorando porque o pai tentava explicar que já não era hora de brincar. Ao perceber que a explicação não iria convencê-la, mediatamente falei: “filha, tenho uma ideia: por que você não leva os seus bichinhos para tomarem banho com o seu shampoo?” Ela adorou minha sugestão, correu para pegar a cestinha com os bichinhos de banho que tanto ama e, se quer, lembrou do giz de cera. Como num passe de mágica, o problema estava resolvido. Ela se divertiu no banho e nós fomos polpados de um momento de estresse.

O segredo da mudança de foco é compreender que, às vezes, é preciso ceder, mas não estou me referindo à conduta errada em sim. Estou falando em ceder sobre a ideia de que a criança deve aceitar e entender o que nós pais consideramos correto. Os pais podem alcançar o objetivo pretendido – no meu exemplo, que Marina fosse para o banho – sem precisar travar uma batalha com seus filhos, pois não se trata de demonstrar o tempo todo quem dita as regras.

A educação, pressupõe o amor – afinal não iríamos gastar energia num processo tão árduo se não houvesse amor – assim como exige respeito, compreensão dos limites e sentimentos de ambos os lados. Portanto, é uma via de mão dupla, onde tudo o que se entrega, se recebe de volta. Sendo assim, sugiro que nos esforcemos para dar o nosso melhor sempre!

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