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Livre demanda – o que não nos contam

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A primeira vez que ouvi a expressão livre demanda foi no consultório pediátrico, um mês após o nascimento da minha filha. O médico foi sucinto ao dizer que eu deveria manter o aleitamento em livre demanda, sem mais pormenores. Eu encarei aquilo de uma forma tão natural que, se quer, cogitei levantar algum questionamento. Para mim, a expressão era auto-explicativa. Eu amentaria minha filha sempre que ela sentisse fome. Simples assim.

Acontece que a coisa não era exatamente da forma como eu havia entendido e eu não tive ninguém para me orientar da forma correta, nem naquela consulta ou ainda na maternidade. Nenhum dos profissionais que estiveram comigo foram capazes de me esclarecer de forma exata do que se tratava a livre demanda. Pelo contrário, me fizeram compreende-la de forma equivocada.

A primeira coisa que ouvi na maternidade é que um recém nascido se alimenta de três em três horas, tanto que era justamente nesse intervalo de tempo que as enfermeiras entravam no meu quarto com a pergunta de rotina: “Marina já mamou?” e quando eu respondia negativamente, elas diziam que já era hora, que era preciso acordá-la.

Partindo desse ensinamento, compreendi que a livre demanda seria ofertar o seio a minha filha sempre ela tivesse vontade e que isso aconteceria regularmente de três em três horas. Ninguém me falou sobre a individualidade de cada bebê; que no início eles precisam ficar um pouco mais no seio porque a mamada ainda não é tão eficiente; que eles têm necessidade de sugar o seio não só porque têm fome; que somente aos pouco o intervalo de tempo entre as mamadas vai se regularizando. Enfim, não me disseram tantas coisas que, certamente, teriam facilitado minha experiência com a amamentação e me poupado de muito sofrimento.

É certo que a amamentação não é tarefa fácil e nunca será. Posso dizer que é, para muitas mulheres, o primeiro desafio que precisam superar logo após o nascimento de um filho. Isso nunca vai mudar. Mas, o conhecimento sobre o tema é a chave mestra para que possamos encarar as dificuldades iniciais mais seguras e confiantes. Por isso, trago nesse post algumas dicas importante, que eu adoraria ter recebido antes de ter iniciado minha prática no aleitamento materno.

Inicialmente, precisamos entender que o conceito de livre demanda diz respeito não somente à frequência com que o bebê mama, mas também à duração das mamadas. Portanto, a livre demanda envolve o conceito de que a frequência e duração das mamadas são determinadas pelas necessidades e sinais precoces de fome do bebê.

No caso concreto, o que nos fará perceber a necessidade do bebê se alimentar é conjunto de sinais que ele nos apresenta.

Principais sinais de fome do bebê:

  1. Abre a boca constantemente na expectativa de abocanhar o mamilo;
  2. Mostra-se inquieto, mexendo a cabeça de um lado para o outro em busca do seio;
  3. Leva as mãos à boca constantemente;
  4. Chora com muita intensidade.

Na verdade, o choro é considerado um sinal tardio de fome. O ideal é que se perceba a necessidade do bebê por meio dos outros sinais, antes que ele entre em estado de estresse. A criança que é levada ao seio ao sinal precoce de fome, consegue mamar de forma mais efetiva,  já que há facilitação da pega e sucção com mais eficiência.

Além da necessidade de se reconhecer prontamente os sinais de fome do bebê, outras questões se revestem de fundamental importância para que a livre demanda se estabeleça de forma plena. Precisamos considerar alguns pontos:

  • Cada bebê tem seu próprio ritmo, por isso a duração e o intervalo entre as mamadas variam de criança para criança, assim como depende da situação em que se encontra o bebê;
  • Também não existe padrão de mamada. Portanto, uma pode ser diferente da outra no que diz respeito à duração e ao intervalo em relação à anterior, considerando o mesmo bebê;
  • Uma criança plenamente satisfeita, em regra, solta o seio espontaneamente. Isso se mostra mais difícil de ser observado se ela adormece enquanto está mamando;
  • Não é regra ter que ofertar os dois seios. O fator determinante é a fome do bebê. Se ao esvaziar o primeiro seio, o bebê já estiver satisfeito, a mãe poderá aliviar o segundo com ordenha manual ou por bomba de amamentação.
  • É muito importante que a mãe observe se houve o completo esvaziamento da mama (o seio fica mais leve, mais macio, sem turgidez), para que se garanta que a criança teve acesso ao leite posterior (3ª fase do leite que contém mais calorias e sacia o bebê), e um maior teor de gordura nas mamadas subsequentes;
  • A necessidade de sucção faz parte do comportamento normal de um bebê e não necessariamente significa fome de alimento, mas a necessidade de contato, calor, sons, conforto, amenizar uma dor, etc;

Benefícios da livre demanda

  • Menor incidência de perda de peso nos primeiros dias e pronta recuperação em caso de perdas mais acentuadas;
  • Apojadura (primeira descida do leite com mais abundância, logo após a fase do colostro) mais precoce;
  • Maior tempo de duração das mamadas;
  • Estabilização dos níveis de glicose do recém-nascido;
  • Diminuição da incidência de icterícia (condicionada pelo excesso de bilirrubina no plasma sanguíneo, que pode indicar problemas no fígado, rins, baço ou vesícula biliar) – condição comuns em alguns recém nascido;
  • Prevenção do ingurgitamento mamário.

Mesmo sabendo dos benefícios da livre demanda, algumas mães são desencorajadas a realiza-la sob o argumento de que seus bebês ficariam mal-acostumados com uma amamentação frequente, o que a levaria a um estado de exaustão, ou mesmo que situações de trauma mamilar estariam diretamente relaciondas à elevada frequência da amamentação.

Esses entendimentos não devem prevalecer, pois, cedo ou tarde toda criança estabelecerá seu próprio padrão de mamada, com frequência, intervalo e duração condizentes à suas necessidades, independentemente do quanto lhe for ofertado o seio, pois isso é um reflexo do amadurecimento normal do sistema digestivo do bebê, assim como do seu próprio desenvolvimento.

Por outro lado, inúmeros estudos já têm demonstrado que os traumas mamilares estão mais associados à má pega do que à frequência ou duração das mamadas.

Então, mamães, na hora de amamentar, deixem os mitos de lado,  parem de olhar para o relógio, concentrem-se mais nos sinais que a criança está lhe dando e vivenciem a livre demanda sem medos, com a certeza de que estão dando o melhor para si.

 

 

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